23 de fevereiro de 2017

A perda (e recuperação) da minha visão

Regressando ao início...

Não sei se todas as pessoas que sofrem de EM, descobrem através de um surto agudo como aconteceu comigo mas sei que a perda de visão e alteração da coordenação motora são dois dos surtos agudos de EM mais comuns.

Acordei um dia sem conseguir ver nada com o meu olho direito mas, voltando atrás uns dias, já tinha uma impressão no olho. Lembro-me de ir a conduzir até ao supermercado e tentar limpar, sistematicamente, a vista, como se tivesse um cisco no olho. Não liguei muito até porque coincidia também com um dia em que tinha usado um amaciador diferente e pensei que talvez tivesse feito alguma reacção...

O que é certo é que passados uns dois dias, acordei e tudo estava diferente. Parecia que havia um nevoeiro cerrado e conseguia ver apenas algumas coisas pelo canto inferior do olho direito. A luz, apesar de não a ver, fazia-me imensa impressão e, durante alguns dias, antes e após a primeira consulta de urgência, tapei a lente direita dos óculos de sol com uma gaze e só assim conseguia estar de olhos abertos - durante algum tempo treinei manter apenas o olho esquerdo aberto mas ficava com dores musculares na parte direita da cabeça e percebi que também não era solução.

O tratamento comum para os surtos agudos de EM são corticosteroides intravenosos, cuja administração dura cerca de 30-45 minutos, durante 5 dias consecutivos. Estes diminuem a inflamação e aceleraram a recuperação. Alguns estudos científicos indicam também que a toma destes diminui a probabilidade de surgir um surto agudo a curto prazo.

Eu decidi não usar os corticosteroides por diversas razões: fobia a agulhas (não conseguia sequer imaginar-me a ser injectada, quanto mais por 30 ou 45 minutos e durante 5 dias); efeitos secundários que poderiam provocar; por desconhecer que o tratamento poderia diminuir a probabilidade de surtos nos meses seguintes (só vim a saber disso depois); tinha lido casos em que o doente recuperava totalmente a visão, mesmo sem este tratamento.

Dizem que só damos valor às coisas quando as perdemos e isso é verdade! Sem a visão direita, de repente tudo era difícil... Não conseguia subir e descer escadas que não conhecesse bem, pois não conseguia perceber a altura dos degraus... Não conseguia ir a um supermercado ou loja pois não via nada do meu lado direito e não me afastava das pessoas quando elas vinham na minha direcção e, de repente, chocava com alguém e apanhava um susto... Aconteceu numa loja mais apertada, afastar-me de uma pessoa para a deixar passar e quase caí porque, do meu lado direito, no chão, tinham deixado uma caixa grande e tropecei nela. Cheguei a pensar comprar uma bengala, não para me ajudar a caminhar, mas para usá-la com alguma inclinação para a direita e assim tentar perceber se havia algum obstáculo... Foram dias mesmo muito frustrantes...

Mas, depois, cruzava-me com pessoas totalmente cegas e isso, mais que nunca, fazia-me pensar... Será que nasceram cegas? Será que perderam a vista por causa de alguma doença ou acidente? Como fizeram para aceitar isso? Como vivem o dia-a-dia? Como conseguem caminhar sozinhas na rua?? Mas, ao mesmo tempo, toda esta reflexão ajudou-me a manter positiva, afinal eu ainda via com o meu olho esquerdo! Agarrei-me a isso, com unhas e dentes - enquanto conseguisse ver de um olho, nada estava perdido!

Depois de ler um testemunho, mudei a minha alimentação para ajudar na recuperação da visão (a partilha fica para depois, pois o post já vai extenso...). No espaço de 1 mês e meio, perdi a conta às consultas que fui - só esta semana fiquei de "férias" do hospital - mas, consulta após consulta, exame após exame, a visão estava a recuperar. Primeiro não lia nada com o olho direito, depois passei para uns 40%, depois para 80% e, finalmente, para 100%. No exame cromático também tive 100%. Na última observação que o meu neurologista fez directamente aos olhos, já não encontrou palidez. Falta apenas um exame - cujo nome não me recordo - dar resultados mais positivos para a zona central do olho direito - supostamente não recebe a informação de luz como deveria. Por fim, já realizei dois OCT, para se poder perceber, ao longo do tempo - um ano, penso eu - se algumas das fibras atrofiaram.

Olhando para trás, talvez tenha sido negligente quando decidi não fazer o tratamento com os corticosteroides mas fiz o melhor que sabia na altura. Por alguma razão, recuperei a visão num espaço de tempo bastante incrível. Fui uma sortuda!

2 comentários:

  1. Desejo te as rápidas melhoras e acredito que vás ultrapassar e viver bem com a doença...
    Um grande beijinho cheio de força :)

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  2. Obrigada Celine pela tua mensagem de encorajamento. É muito bom sentir amor e carinho à minha volta. Beijinho grande :)

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